google-site-verification=TIlu7FS_zlCJGnuAAh7iaIgmPBOWlfbGblM-WVr0les
Portes grátis em todas as compras para Portugal Continental. Devido ao COVID-19 as encomendas poderão demorar até uma semana a serem processadas. Agradecemos a compreensão.

A Raposa Matreira

  Blog

Para Além do Murakami - Uma (Pequena) Viagem pelo Japão

Escrito em 08 de Out. de 2020

Obrigada por começarem esta viagem connosco!
Na Raposa Matreira acreditamos que a literatura que lemos tem uma grande influência nas pessoas que somos.


Há dois anos olhei para a minha estante e, para meu horror, apercebi-me que 99.9% dos livros na minha estante eram de autores ocidentais, muitos deles mortos há uns quantos séculos. Não há nada de errado com esses livros, o que há de errado é a ausência de tantos outros. Dois anos passaram e, embora hajam muitas mais escritoras, a grande maioria dos livros que habitam a minha estante continuam a ser de origem europeia, como quem diz inglesa, italiana, portuguesa e francesa. Para mudar isso impus-me um projecto, ler diversos autores de um país que esteja pouco representado na minha estante. Queremos, no entanto, que seja um caminho percorrido em conjunto. Não temos todas respostas e procuramos também a vossa participação, a vossa participação e sugestões são cruciais para o desenvolvimento deste projecto.

Nesta primeira newsletter começamos por explorar um pouco da literatura japonesa, sugerimos 5 autores para além de Haruki Murakami para descobrirem um pouco mais da literatura deste país.

Infelizmente são poucos os  autores japoneses contemporâneos que se encontram traduzidos para português, sendo um dos poucos a que temos acesso o Haruki Murakami, que tem leitores que seguem o seu trabalho meticulosamente. Tenho que já deixar claro que nunca fui grande fã de Murakami (desculpem!), embora tenha um pai que devorou todos os seus livros e que me tenta constantemente dar mais oportunidade aos livros. No entanto, a cultura Japonesa sempre me fascinou, e aos poucos fui dando oportunidades a outros autores japoneses, acabando por descobrindo autores que me surpreenderam.

Não sou especialista na história japonesa, nem na sua literatura, infelizmente. Os livros que vos apresento são apenas cinco livros escritos por autores japoneses que gostei de ler, e que me ajudaram a compreender mais sobre a cultura do país, não sendo portanto uma lista exaustiva de obras da literatura japonesa mas que apenas são apenas um caminho para começar ou continuar a descobrir a literatura japonesa.

The Pillow Book

 

The Pillow Book, juntamente com o Tale of Genji, é um dos mais importantes livros do período Hein (794-1185). Escrito por Sei Shonagon (nome inventado pois, o nome das filhas não era registado) durante o seu tempo na corte (990-1000). Esta obra consiste numa colecção de retalhos, desde anedotas e listas a outros pensamentos que ocorriam a Sei Shonagon durante os seus dias. Ao contrário de Tale of Genji que conta a história de Genji, The Pillow Book é composto por pequenos excertos que oferecem uma visão mais pessoal e informal da vida das mulheres na Corte.

Não é por acaso que os dois livros mais conhecidos deste período tenham sido  escritos  por mulheres. A escrita de prosa era vista como uma arte menor, sendo um passatempo reservado para as mulheres. As mulheres viviam uma vida separada dos homens, tendo apenas contacto com o seu marido e familiares. até o abecedário utilizado pelas mulheres era distinto do utilizado pelos homens. Enquanto estes utilizavam o Kanji (adaptação dos caracteres chineses), as mulheres não aprendiam esta forma de escrita por ser considerada imprópria para mulheres, estas utilizavam portanto o Hiragana, abecedário que tinha como base os sons da linguagem japonesa. Estas obras eram então escritas por mulheres e para um público feminino, embora com o tempo tenham também angariado alguns fãs masculino.


O Pillow Book é uma janela para a vida e pensamentos das mulheres da aristocracia no período Hein.

Terra da Neve

 Se puderem sugiro que leiam toda a obra de Yasunari Kawabata, mas para esta lista em particular vou focar-me no Terra de Neve (Dom Quixote, 2019), que o meu livro preferido deste autor. 

Há 3 anos peguei, um pouco por acaso, peguei noutro livro do autor, As Belas Adormecidas (Dom Quixote, 2017). Li-o de uma só assentada, fiquei tão fascinada com a sua história invulgar, um estabelecimento que oferece a homens idosos a oportunidade de dormirem ao lado de mulheres jovens nuas. Estes nunca podem, no entanto, tocar-lhes. Kawabata explora os encontros que estes homens têm com estes corpos para ir desvendado a vida destes homens e seus mais profundos desejos e desilusões. Em Terra de Neve, Kawabata conta-nos uma história aparentemente mais banal, uma história de amor, esta história vai-se desenrolando em paralelo com as estações do ano, que deixam de ser apenas pano de fundo da história e se fundem com a história das duas personagens.

Confissões de Uma Máscara

Em Confissões de Uma Máscara (Livros do Brasil, 2019) Yukio Mishima conta-nos uma história auto-biográfica de como, desde cedo, aprendeu que para se poder encaixar nos ambientes que frequentava, tinha que representar um papel. Fosse em casa, onde tinha que obedecer às regras rígidas que a sua avó lhe impunha, ou perante os seus familiares, este vai-se despindo da pessoa que é "E, nesta casa, exigia-se em mim, taciturnamente que me comportasse como um rapaz. Embora isso não me agradasse acabei por adoptar o disfarce. […] aquilo que as pessoas consideravam como o meu eu verdadeiro era nem mais nem menos de um disfarce." Também com os seus colegas e amigos adopta um disfarce, para esconder a sua homossexualidade. Na escola simula um interesse por raparigas para esconder o interesse que tem pelo seu colega Omi. E mais tarde força um interesse pela irmã de um colega seu para mascarar o interesse que tem pelos corpos masculinos com que se cruza. Confissões da Uma Máscara é uma história da sociedade rígida do Japão Imperial que não deixa espaço para qualquer comportamento fora dos já previamente definidos, obrigando ao uso constante de máscaras.

"E, nesta casa, exigia-se de mim, tacitamente, que me comportasse como um rapaz. Embora isso não me agradasse, acabei por adotar o disfarce. Nessa época, começava vagamente a compreender o mecanismo de um facto: o que as pessoas consideravam como uma atitude era, em mim, na realidade, a expressão da necessidade de afirmar a minha verdadeira natureza, e aquilo que as pessoas consideravam como o meu eu verdadeiro era nem mais nem menos do que um disfarce."

Memórias de Um Urso Polar

Tal como aconteceu com A Casa das Belas Adormecidas três anos antes este foi um livro que atraiu imediatamente com o seu título. E acabou por ser das leituras que mais apreciei este ano, o Memórias de Um Urso Polar (Sextante, 2019)  de Yoko Tawada. Neste livro o leitor segue a vida de três gerações de ursos polares, todos artistas, uns estrelas de circo, outros escritores de renome. À medida que a escritora descreve a vida destes ursos as suas vidas e preocupações vão-se aproximando das nossas, as dos humanos deixando cada vez menos presente a diferença entre os animais que descreve e nós.  

Breasts and Eggs

Mieko Kawakami, autora de Breasts and Eggs (Picador, 2020), iniciou a sua carreira como cantora/compositora começando posteriormente a escrever livros. Publicou o seu primeiro livro em 2008, recebendo diversos prémios (Prémio Akutagawa, Tsubouchi Shoyo Prize for Young Emerging Artists, Tanizaki Junichiro Prize, etc.) Este é o primeiro dos seus livros a ser publicado para inglês e que, infelizmente, ainda não se encontra traduzido para português. No Japão foi um enorme sucesso comercial e crítico, recebendo elogios da parte de Haruki Murakami. O livro divide-se em duas partes, a primeira, em que seguimos a história de três mulheres, Natsuko, a sua irmã mais velha e Makiko a sua filha de 12 anos. A irmã de Nattsuko encontra-se obcecada pela ideia de colocar implantes mamários que pensa que irão mudar a sua vida. Na segunda parte reencontramos Natsuko, procura formas de engravidar.
Em ambas as partes a autora explora como a forma como corpo feminino é visto pela sociedade afecta a forma as mulheres vêm o seu próprio corpo. A forma como afecta a forma como as mulheres se vêm desde muito cedo é visível no diário de Makiko. Quando esta vê pela primeira vez os corpos nus de mulheres adultas em revistas ou na televisão, criando uma imagem bastante limitada do que os corpos das mulheres poderiam ser e colocando todo o seu valor na sua aparência. Mais tarde, quando começava a menstruar, questiona a importância que é dada a esse momento. "The other day at school, between classes, I forget who, but someone has saying "I was born a girl so yeah I definitely want to have a baby of my own eventually. Where does that come from, though? Does blood coming out of your body make you a woman? A potential mother? What makes that so great anyway? Does anyone really believe that anyway?". Kawami, rejeita a forma como as mulheres são reduzidas ao seu corpo, à importância que é dada à aparência deste e como as mulheres são limitadas à sua capacidade de criar vida. A autora dá também ênfase às desigualdades existentes que fazem com que seja mais difícil para as mulheres saírem das situações precárias em que vivem.

"As a kid, whenever I saw the naked women in the magazines that the kids in the neighbourhood got their hands on, or saw a grownup woman expose her body on TV, I guess on some level I thought that someday all those parts of me would fill out, too, and I would have a body just like them. Except that never happened. My monolithic expectation of what a woman's body was supposed to look like had no bearing on what actually happened to my body. The two things were wholly unrelated. I never became the woman I imagined. And what was I expecting? The kind of body that you see in girly magazines. A body that fit the mood of what people describe as "sexy". A body that provokes sexual fantasy. A source of desire. I guess I could say that I expected my body would have some sort of value. I thought all women grew up to have that kind of body, but that's not how things played out."

Mais uma vez obrigada por fazerem esta viagem connosco, na próximo mês exploraremos outro país (se forem nossos apoiantes no Patreon basta espreitarem a nossa página para descobrirem qual será o país) se não forem podem apoiar este projecto por apenas o preço de um café por mês, tendo acesso a conteúdo exclusivo e muita mais espreitem a nossa página Patreon . Se quiserem receber a Newsletter podem subscrever aqui no nosso site ou enviando-nos uma dm na nossa página de instagram. Até Novembro!


×