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A Raposa Matreira

  Blog

Dubravka Ugrešić

Escrito em 01 de Dez. de 2019

Dubravka Ugrešić

No início de 2019, após ler A História de Elsa Morante, não só me apercebi do diminuto número de autoras que li em toda a minha vida como entrei em pânico com a quantidade de livros interessantes que me estariam a passar ao lado (tenho passado este ano a tentar reparar esse problema). Desde então sou acompanhada por diversas questões que ainda não consegui responder. Porque é que a minha estante é grandemente dominada por homens? Se não é uma questão de qualidade (e por esta altura não tenho qualquer dúvida que não é esse o caso) então porque que grande parte das autoras recebem tão pouca atenção? Que pode ser feito para reparar este problema? Aos poucos e poucos fui também apercebendo-me que o problema não era só uma questão de género, pois grande maioria dos autores/as que li eram da América do Norte ou Europa (quando digo Europa refiro-me maioritariamente ao Reino Unido, França, Portugal, Itália e pouco mais). Escrevo isto, apesar de ter uma enorme vergonha de o admitir, para que fique claro que não tenho um conhecimento extenso sobre literatura não escrita por homens de meia idade anglo-saxónicos/francófonos. E é exactamente por esse motivo que quis iniciar este projecto, quero que seja um projecto de partilha tanto da minha parte como da vossa.

Começamos esta viagem pela Croácia, com a escritora Dubravka Ugresic, embora não seja uma autora particularmente desconhecida, tendo sido vencedora de diversos prémios literários entre os quais o Prémio Internacional Neustadt de Literatura em 2016. Pessoalmente desconhecia a autora (sendo apenas familiar com a capa do seu livro A Raposa). Para me familizar um pouco com as ideias da autora comecei por ver algumas das suas conferências (poderão encontrar os links para essas conferências no final desta newsletter) fiquei imediatamente interessada pelo modo como vê o mundo, pela atenção que presta ao mesmo e capacidade que tem em justapôr realidades, aproximando o presente e o passado, mas também unindo países.

O livro pelo qual comecei a minha descoberta do trabalho de Dubravka Ugresic foi Raposa (Cavalo de Ferro, 2018). Este livro é bastante difícil de descrever por não ser composto por uma narrativa tradicional mas sim por fragmentos, que de certa forma tentam responder à questão que é colocada no início do livro, “Como é que as histórias se tornam matéria escrita?”.  Embora esta questão fique em aberto, sendo que autora apenas nos oferece sugestões de resposta. Nestes fragmentos, unidos pela mitologia da Raposa, Ugresic conta-nos diversas histórias, desde a migração da sua mãe, os seus amores de juventude, a vida na Jugoslávia, o retorno a “casa” (o que é casa?), Nabokov  aos refugiados em Itália de Hoje.

A secção do livro que mais me marcou foi a parte dois, “A Arte Equilíbrio”, quando a narradora do livro (a própria Dubravka Ugresic?) é convidada para fazer parte de um encontro sobre migrações europeias. Aqui a autora medita sobre dois assuntos, os estereótipos das nacionalidades e crise dos refugiados. O encontro está repleto de autores de diversas nacionalidades, que são confrontados com os estereótipos das suas nacionalidades e que, percebendo que é o que o público procura acabam por se moldar a essa expectativa. A questão da nacionalidade é algo que a autora questiona tanto na sua obra literária como na vida vida pessoal. Após a desintegração da Jugoslávia, país onde nasceu, recusou-se a escolher entre a nacionalidade Croata e Sérvia e ainda hoje vê este assunto com bastante criticismo, acreditaando que a questão de ter de escolher uma nacionalidade não só é limitadora como é um acto de violência cultural pois, no caso dos países que surgiram após a desintegração da Jugoslávia a ideia de nacionalidade tornou-se um modo de dizer aos seus cidadãos como se comportarem (E, de certa, talvez a noção de nacionalidade seja sempre uma forma de controlo). No livro, a situação em que os oradores da conferência se encontram chama um pouco à atenção não só para esta questão da simplificação das culturas dos países mas também o modo como a nacionalidade é vista como algo que define por completo o nosso carácter.  Este episódio deixou-me com várias perguntas, tentaremos todos nós moldar-nos às simplificações existentes da nossa nacionalidade? Que podemos fazer para limitar esta tendência de olhar para países (e para as suas Histórias) de modo tão simplificado e consequentemente esperar que os seus habitantes se comportem de um modo igualmente simplificado e caricatural? Sendo o encontro realizado em Nápoles, o tema dos refugiados não poderia de estar presente, sendo que Itália juntamente com a Grécia, um dos países Europeus que lida com com esta situação mais directamente. A autora explora a linguagem que é (e foi) utilizada para descrever quem, seja por motivos políticos ou de guerra, necessita de fugir do seu país e os efeitos que esta tem, “A linguagem era a escala perfeita para as atitudes em relação aos refugiados. Quanto mais delicadas as palavras, mais graves as atitudes perante os «recém-chegados» [...] A linguagem dos especialistas (sociologistas, historiadores, cientistas políticos) era igualmente desconcertante. Também eu fui rotulada por esse tipo de linguagem, através de categorias como identidades hifenizadas, identidades híbridas e epítetos equivalentes. A linguagem que seguiu as restrições da suposta correcção e cortesia política, a linguagem que tomou uma posição, pelo menos de forma declarativa, de oposição, à linguagem explicitamente fascista, apenas tinha, na verdade, engordado o repertório linguístico de discriminação”. (PP. 66-67)

Dubravka Ugresic inicia o livro O Museu da Rendição Incondicional fazendo uma lista de todos os objectos encontrados no estômago de uma morsa, chamada Roland que se encontra exposta no jardim Zoológico de Berlim, “Um isqueiro cor-de-rosa, quatro paus de gelado (de madeira), um broche de metal em forma de poodle, um abre-garrafas, uma pulseira de senhora (de prata, provavelmente), um gancho de cabelo, um lápis de madeira, uma pistola de àgua de plástico de criança, uma faca de mola (pequena), um anel de borracha, um pára-quedas (brinquedo infantil), uma corrente de aço com cerca de 46 cm de comprimento, quatro pregos (grandes), um carro de plástico verde, um pente de metal, um distinto de plástico, uma bonequinha, uma lata de cerveja (Pilsener 2,84 decilitros), uma caixa de fósforos, um sapato de bebé, uma bússola, uma pequena chave de carro, quatro moedas, uma faca com cabo de madeira, uma chucha, um molho de chaves (5), um cadeado, um saquinho de plástico com agulhas e linha.” (P.9). Tendo como ponto de partida esta lista de objectos aleatórios, Ugresic explora a nossa memória, o nosso museu pessoal.

A autora refere a carteira da sua mãe, também esta recheada de objectos aparentemente aleatórios que esta mantinha sempre consigo, “Na minha infância empbrecida do pós-guerra, privada de coisas, a carteira da Mãe era um substituto para uma cave ou um sótão, uma casa de bonecas, uma arca de brinquedos inexistentes. Eu costumava tirar o seu conteúdo modesto, entusiasmada, sentindo-me como uma particpante iniciada num qualquer Mistério. Não podia saber que era isso que eu era. Uma participante no simples mistério da vida. Para começar, a carteira escondia fotografias (da minha mãe sobretudo), algumas cartas (do meu pai), uma moeda de ouro, uma cigarreira de prata, um lenço de seda pura e... uma madeixa de cabelo” (P.28). As nossas memórias, tal como os objectos que guardamos é também, por vezes, algo fragmentada e aleatória, especialmente a memória de aqueles que passam por algum evento traumático como é o caso da autora (e narradora) que assistiu a desintegração do seu país, a Jugoslávia em seis. No livro um amigo diz-lhe que “[...] a história de uma vida estilhaçada só podia ser contada em pequenos fragmentos...”. É que acontece com a história que a autora nos conta neste livro, é construída através de retalhos, como faz sentido contar uma história sobre memória pois, nenhuma memória é o reflexo completo e linear da nossa vida. A nossa memória é caótica e desorganizada, esquecendo partes, memorizando alguns pormenores insignificantes e, por vezes, embelezando outras partes da nossa vida. O livro está repleto de diversas instâncias que demonstram o quão caprichosa a nossa memória pode ser, ao ouvir as discrições de familiares da sua mãe, repletas de personagens interessantes, a narradora retêm mais informação sobre aquele que era o membro mais desinteressante. Ao visitar uma amiga é pedido à narradora que descreva o rapaz com quem a sua amiga teve uma relação antes de se ter casado. A sua amiga descreve este homem como tendo um metro e oitenta e olhos azuis, a narradora não reconhece a pessoa que a amiga lhe está a descrever, e apenas posteriormente percebe que a pessoa que lhe está a ser descrita está bastante longe da pessoa que ela pretendia descrever, “No álbum verbal organizado para os amigos, a fotografia de Mirek tinha sido melhorada na sua viagem de Zagreb para os subúrbios americanos. O Mirek que não teria mais de um metro e setenta transformara-se no Miroslav de um metro e oitenta; a cor dos seus olhos mudara de castanho para azul e um jovem vulgar de Zagreb tornara-se um amante inesquecível e na propriedade imaginária das participantes na festa de raparigas. Como estrelas cadentes há muito extintas, aqui, do outro lado do céu, Mirek brilhava em toda a sua glória.” (P.36)

A nossa memória é também construída pelos objectos e fotografias que escolhemos guardar, como acontece no caso da mãe da narradora. Uma fotografia é ao mesmo tempo fiel e infiel à verdade, reproduz apenas um breve momento, não sendo capaz de reproduzir o que sucedeu antes nem depois do momento que foi capturado pela câmara. Nós compômos álbuns fotográficos para tentarmos fazer da nossa vida uma narrativa linear, embora estes álbuns sejam também compostos apenas por fragmentos, tal como a nossa memória.

 

 

Sinopse Raposa:

Algures na Rússia soviética, o escritor Boris Pilnyak descobre a autobiografia de Sophia Vasilyevna, uma mulher cuja vida perfeitamente comum se alterou drasticamente quando se apaixonou por um oficial japonês, com quem foi viver para Osaka.
Tagaki, o marido, acaba por se tornar famoso com a publicação de um romance biográfico acerca da sua mulher — romance, porém, muito pouco discreto. Boris, fascinado com a história, decide, por sua vez, escrever um livro sobre o casal e o dito romance que expôs a sua relação. Mas quanto da história de Tagaki e Sophia é real, e quanto da de Pilnyak é ficção?

Partindo desta história de sucessivas traições (literárias ou reais?), com a sua renomada perspicácia, humor e inteligência, Ugrešic transporta o leitor numa viagem da Rússia ao Japão, dos campos de minas dos Balcãs às road trips norte-americanas, dos loucos anos 20 aos dias de hoje, examinando a origem das histórias e o real poder da invenção literária e do acaso, que, em todos os momentos, pontua a vida humana.

 

Sinopse O Museu da Rendição Incondicional:

No jardim Zoológico de Berlim, dentro de um expositor de vidro, estão exibidos todos os objectos encontrados no interior do estômago de Roland, a Morsa (que morreu em 1961). É com este catálogo insólito que Dubravka Ugrešic inicia o seu livro: também ele um mosaico de fragmentos narrativos, recordações e reflexões, descritos pela protagonista, uma quinquagenária croata exilada em Berlim. Fala-se de fotografias antigas, de cartas de tarot, de histórias de família, de amor (com passagem por Lisboa), de guerra e de exílio; pedaços de um puzzle que comporá, numa única imagem final, o retrato da cultura e identidade europeias. O Museu da Rendição Incondicional foi recebido pela crítica internacional como uma obra universal e um dos mais importantes romances contemporâneos europeus das últimas décadas.

 

 

 

Entrevistas:

https://tinhouse.com/my-dinner-with-dubravka-ugresic-on-anti-nationalism-and-home/

http://politicalcritique.org/world/eu/2017/i-am-a-literary-smuggler-an-interview-with-dubravka-ugresic/

http://www.musicandliterature.org/features/2015/5/12/a-conversation-with-dubravka-ugresic

https://www.youtube.com/watch?v=W_a7wIMrTVU

https://www.youtube.com/watch?v=ABN9iTeEvgE

https://www.youtube.com/watch?v=eLb3mgGrKa4

 

Conferências:

https://www.youtube.com/watch?v=xcmuNYKiLnc&t=1588s

https://www.youtube.com/watch?v=N1yvZlT5TAc

 

Contexto Sócio-Histórico

https://www.youtube.com/watch?v=oiSgAiM0d8A – Desintegração da Jugoslávia

https://www.youtube.com/watch?v=6RKMRBxDm20 – Lingua e Religião da Jugoslávia

https://www.youtube.com/watch?v=9goS1nHM_-E – Biografia de Josip Broz ‘Tito’, Líder da Jugoslávia


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